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» A VEGETAÇÃO NO PÁTIO ESCOLAR: UM ESTUDO PARA A REALIDADE DE PORTO ALEGRE–RS

 

Fedrizzi, B.; * Tomasini, S.L.V.; Cardoso, L.M.

Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação - NORIE / UFRGS. (sergiovtomasini@yahoo.com.br)

INTRODUÇÃO

A melhoria da qualidade dos pátios escolares constitui uma importante alternativa no sentido de tornar as escolas locais mais atrativos e aprazíveis para a comunidade escolar como um todo. A vegetação bem planejada é um dos elementos que mais colabora para melhorar a qualidade destes espaços, agregando valores estéticos aos mesmos, melhorando suas condições de conforto e, ainda, servindo como uma valiosa ferramenta de apoio ao trabalho de educação ambiental.

Grahn (1994) afirma que crianças em pré-escolas, escolas e hospitais mostram comportamento mais harmonioso e têm uma melhor relação com os funcionários quando estas podem passar mais tempo em contato com a natureza. Ele explica também que elas brincam melhor, fantasiam mais, e têm uma melhor percepção do espaço em que vivem.

Pátios escolares atrativos podem até mesmo criar oportunidades para o desenvolvimento cultural e tendem a fazer a comunidade escolar sentir-se orgulhosa (FEDRIZZI, 1991). Um pátio escolar com vegetação e ambientes naturais pode relembrar as pessoas de que elas são parte de um ecossistema muito delicado. Neste tipo de ambiente, as crianças podem aprender como cultivar alimentos de alta qualidade e ficarão bem informadas sobre a possibilidade de suprir seus próprios problemas nutricionais (FEDRIZZI, 1997).

Em uma pesquisa realizada em escolas inglesas, Titman (1994) observou que as crianças, de maneira geral, preferem e valorizam mais ambientes naturais do que ambientes construídos. Para a pesquisadora, ambientes externos naturais significam oportunidades para uma gama de coisas que as crianças desejam e necessitam, e que não podem ser encontradas nos espaços internos da escola.

Segundo Harvey (1989), a variedade de vegetação existente no pátio escolar pode ter um efeito positivo na formação de uma ética ambiental entre as crianças. Após entrevistar mais de 800 alunos com idade entre 8 e 11 anos sobre suas experiências anteriores no contato com a vegetação, a autora verificou uma influência positiva do contato com uma maior variedade de plantas sobre a disposição ambiental dos alunos. Baseado nestes resultados, a autora recomenda que ambientes para crianças devem ser planejados de forma a oferecer a maior variedade de vegetação possível.

Tendo em vista as considerações acima, este trabalho relata parte dos resultados de uma pesquisa desenvolvida com os objetivos de conhecer a qualidade da vegetação oferecida nos pátios das escolas da rede municipal de ensino de Porto Alegre-RS, bem como estudar a percepção de alunos e professores sobre a importância da presença de vegetação no pátio para a vida da escola.

METODOLOGIA

 

A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas: a primeira consistiu da avaliação da vegetação existente nos pátios de 15 escolas municipais; a segunda consistiu de um estudo de casos envolvendo 4 escolas selecionadas dentre aquelas estudadas na primeira etapa.

As 15 escolas estudadas na primeira etapa foram amostradas a partir de um universo de 44 escolas de ensino fundamental que compõem a rede municipal de ensino. Para proceder na avaliação da vegetação, desenvolveu-se um método que leva em consideração a presença, a quantidade e a qualidade da vegetação presente nos espaços estudados. O método utilizado consistiu basicamente de uma avaliação visual da vegetação presente nos pátios, realizada por ocasião das visitas às escolas. Esta avaliação considerou os diferentes níveis ou tipos de vegetação (quanto ao porte e à função) encontrados nos pátios das escolas: a)árvores; b)arbustos; c)forrações (principalmente canteiros de flores ou outras espécies herbáceas de uso ornamental); d)grama; e)local para cultivo (horta ou outro espaço dedicado ao cultivo de plantas pelas crianças); f)vegetação do entorno (acessada pelas crianças a partir do pátio somente por meio visual). Para cada escola visitada foi atribuída uma nota para cada um dos referidos níveis de vegetação acima citados. Essa nota, por sua vez, foi atribuída baseada em uma escala de valores que leva em conta a presença, a quantidade e a qualidade do nível de vegetação avaliado. Baseado nos escores finais obtidos, as escolas foram agrupadas nas seguintes categorias: Classe I - pátio com boa vegetação; Classe II - pátio com relativa vegetação (ou vegetação regular); Classe III - pátio com vegetação ruim; e Classe IV - pátio árido, ou sem vegetação.

Na segunda etapa foram estudadas quatro escolas selecionadas em função da avaliação da vegetação realizada na primeira etapa. A fim de se comparar como diferentes situações de vegetação no pátio influenciam a percepção de alunos e professores, procurou-se selecionar escolas que apresentavam extremos em termos de vegetação disponível no pátio. Assim, de um lado foram selecionadas duas escolas mal classificadas em relação à vegetação (Classe IV) e duas escolas bem classificadas (Classes I e II, já que, como será discutido mais adiante, apenas uma escola pôde ser situada na Classe I). Para cada escola foram realizados levantamentos físico e fotográfico das áreas externas, registrando-se os diferentes níveis de vegetação presentes nas mesmas. Foram aplicadas entrevistas abertas com professores e alunos sobre a importância da vegetação no pátio da escola, sendo as respostas gravadas e transcritas para que, posteriormente, fossem identificadas palavras-chave para a construção das categorias de respostas. No total, foram aplicadas 73 entrevistas (40 com alunos e 33 com professores).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Aplicando-se à amostra estudada o sistema de classificação anteriormente citado, obteve-se a seguinte distribuição das escolas visitadas: 7 foram classificadas como áridas (classe IV), 6 com vegetação ruim/insuficiente (classe III), e apenas 2 escolas foram classificadas como tendo vegetação regular ou boa (classes II e I, respectivamente). As escolas classificadas como áridas (classe IV) pela pesquisa são bastante variáveis quanto às formas e tamanhos de seus pátios, no entanto apresentam como característica comum paisagens bastante desoladoras e a presença muito escassa de vegetação (quando não ocorre a sua total ausência). Os pátios das escolas que foram classificados na classe III diferem dos pátios áridos descritos anteriormente principalmente pela presença mais significativa de árvores no pátio. As árvores existentes nos pátios destas escolas, no entanto, apresentam-se ainda em pequena quantidade, de forma muito esparsa e, freqüentemente, mal posicionadas em relação às áreas de uso mais comum entre os alunos. Somente uma das escolas visitadas foi classificada como classe II. Esta escola, por ser relativamente nova, não possui vegetação arbórea desenvolvida, estando a presença deste nível de vegetação restrita a mudas recentemente plantadas. Apesar da quase ausência deste importante nível de vegetação no pátio, a paisagem da escola está longe de ser árida, porque outros níveis de vegetação estão presentes de forma bastante significativa (gramados, diversas espécies de arbustos, canteiros para o cultivo de forrações, além de uma vegetação de entorno privilegiada, já que a escola encontra-se ao lado de uma área de preservação). Finalmente, uma das escolas visitadas pôde ser classificada como classe I, cujo pátio apresentou-se muito próximo ao ideal. Nesta escola, todos os níveis de vegetação previstos encontram-se presentes, em quantidades significativas e distribuídos pelo pátio de forma plenamente integrada, o que permite muitas possibilidades de interação entre os usuários do pátio e as plantas

Os resultados das entrevistas aplicadas às quatro escolas participantes do estudo de casos apontaram semelhanças e diferenças entre as percepções dos entrevistados das escolas com pátios áridos e dos entrevistados das escolas com pátios onde a presença de vegetação é mais marcante. Na figura 1, pode-se visualizar as categorias de respostas encontradas para importância atribuída à presença de vegetação no pátio da escola , bem como as freqüências observadas para cada grupo de escolas (escolas áridas e escolas com vegetação).

Por que é importante ter plantas no pátio da escola?

 

Figura 1: Importância atribuída à presença de vegetação no pátio da escola,

A principal semelhança entre as percepções dos entrevistados de ambos grupos de escolas foi a grande associação da vegetação a seu valor ornamental. Ou seja, tanto nas escolas áridas como nas escolas com vegetação, os entrevistados percebem a vegetação predominantemente como um elemento capaz de melhorar esteticamente o pátio, tornando-o mais agradável aos sentidos. Quanto às diferenças entre os grupos de escolas estudados, observa-se, em primeiro lugar, que os respondentes do grupo das escolas com vegetação apresentam maior freqüência para a maior parte das categorias de respostas. Estes resultados confirmam aquilo que se observou durante a aplicação das entrevistas, ou seja, nas escolas com vegetação a experiência (tanto de alunos como professores) do contato mais próximo com a vegetação se reflete em uma maior consciência dos entrevistados sobre a importância e os benefícios de se ter plantas no pátio da escola. Observa-se ainda que os entrevistados do grupo de escolas áridas marcantemente valorizam mais os benefícios térmicos da vegetação em suas respostas do que os entrevistados das escolas com vegetação. Isto talvez possa ser explicado porque os entrevistados deste primeiro grupo sofrem diretamente os efeitos da falta de locais sombreados no pátio da escola, sendo que uma reivindicação freqüentemente manifestada pelos mesmos durante as entrevistas era o plantio de árvores “de sombra” no pátio. Por outro lado, a categoria de respostas mais salientada pelos entrevistados do grupo das escolas com vegetação quando comparados aos entrevistados das escolas áridas foi: as plantas valorizam a escola e as pessoas. Esta categoria de resposta está relacionada à auto-estima da comunidade escolar, envolvendo um nível de abstração bem maior do que a questão do conforto térmico abordada anteriormente. Provavelmente, portanto, esta categoria de resposta reflita um nível de consciência que só poderia emergir da experiência prática da comunidade escolar com a vegetação do pátio escolar, o que de fato ocorre no grupo das escolas com vegetação, como pôde ser verificado durante o desenvolvimento da pesquisa.

CONCLUSÕES

O estudo revelou, para a grande maioria das escolas estudadas, condições insatisfatórias quanto à presença e quanto à qualidade da vegetação presente nos pátios. Verificou-se também que, tanto em escolas cujos pátios possuem níveis mais adequados de vegetação como em escolas áridas, alunos e professores tendem a associar predominantemente os benefícios da vegetação no pátio ao seu valor estético. Em escolas cujos pátios apresentam vegetação mais adequada, no entanto, parece existir um maior consciência sobre os benefícios da vegetação, onde são salientados aspectos mais abstratos relacionados a auto-estima da comunidade escolar e, que, provavelmente emergem em função da experiência prática com a vegetação do pátio escolar

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FEDRIZZI, B. The Schoolyard and the Children Needs . Master Theses. Department of Landscape Planning. SLU. Alnarp. 1991. Unpublished.

FEDRIZZI, B. The Brazilian Reality: An Overview of Schoolyards . Department of Landscape Planning. SLU. Alnarp, 1997.

GRAHN, P. The Importance of Green Urban Areas for Peoples' Well-being . European Regional Planning. no 56, pp 89-112. 1994.

Harvey, M. Children's Experiences with Vegetation. Children's Environmental Quarterly 6(1): 36-43. 1989.

PROSHANSKY, H. M. , FABIAN, A. K. The Development of Place Identity in the Child. In Weinstein, C. S. & David, T. G. (Eds). Space for Children, The Build Environment and Child Development . Plenum Press. New York, 1987.

TITMAN, W. Special Places; Special People. The hidden curriculum of school grounds . Dorking - UK, 1994.

 

 

 

 

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