Nelson Severo de Castro
Com o advento da troca de informações pelo correio eletrônico, adquiri o hábito de colecionar mensagens interessantes, como esta que transcrevo logo abaixo:
Como nasce um Paradigma
Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula. No meio, uma escada e sobre ela um cacho de bananas. Quando um macaco subia na escada para pegar as bananas, os cientistas jogavam um jato de água fria nos que estavam no chão.
Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros o pegavam e enchiam de pancada. Com mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.
Então, os cientistas substituíram um dos macacos por um novo.
A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo retirado pelos outros, que o surraram. Debois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada.
Um segundo foi substituído e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo na surra ao novato. Um terceiro foi trocado e o mesmo ocorreu. Um quarto, e afinal, o último dos veteranos foi substituído.
Os cientistas entao ficaram com um grupo de cinco macacos que mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.
Se possível fosse perguntar a algum deles porque eles batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resóosta seria: “Não sei, mas as coisas sempre foram assim por aqui”.
Você não deve perder a oportunidade de passar esta história à todos para que, vez por outra, se perguntem porque estao batendo.
“É MAIS FÁCIL DESINTEGRAR UM ÁTOMO DO QUE UM PRECONCEITO”.
Albert Einstein
Muitos devem estar pensando, o que isso tem a ver com a Arborização Urbana. Explico:
A partir de 1997 passei a exercer minhas atividades na área de manutenção de redes elétricas da CEEE. De lá para cá, tenho me envolvido principalmente com as atividades de poda, na tentativa de minimizar os conflitos existentes entre redes elétricas e vegetação. Muito treinamento de poda para prestadoras de serviço; muita explicação para o consumidor, justificando, muitas vezes, o injustificável; muita discussão interna em torno da necessidade de implantação de novas tecnologias, como forma de minimizar conflitos e reduzir custos operacionais, enfim, todas as coisas boas que esta atividade nos proporciona.
Desde essa época tenho procurado verificar como as outras Concessionárias atuam, e vejo que existe unanimidade na forma de proceder para atenuar os conflitos existentes: poda, muita poda, e substituição de cabos nus por cabos protegidos.
Quem executa a poda? Na maioria das vezes, as Concessionárias. Arcam com os custos financeiros e de imagem também. São as grandes vilãs da arborização urbana.
Mas vamos ao que interessa: o que tem me chamado a atenção, são as recomendações sobre espécies a serem plantadas na via pública, contidas nos manuais de arborização e podas urbana, publicados por Concessionárias de Energia Elétrica e Prefeituras Municipais.
Não é novidade que todas estas publicações são unanimes em recomendar aquilo que já se tornou uma convenção neste segmento, ou seja, “sob as redes elétricas, devem ser plantadas árvores e/ou arbustos de pequeno porte, como forma de prevenir e/ou eliminar a interferência dos galhos nestas redes”.
Ate aqui nenhuma inovação, porque como já foi dito, todas as publicações que tratam desse tema, fazem essa recomendação.
Acontece que de tanto ir a campo, orientar e fiscalizar a execução dos serviços das turmas de poda, assim como de observar a disputa pelo espaço aéreo entre as redes elétricas e as árvores, começo a ter duívidas se essa recomendação é a melhor, a médio e longo prazo.
É por isso que me lembro da história dos macacos e começo a pensar se todos nós não estamos batendo, sem perguntar o porquê.
É, claro que essa recomendação não é infundada. Tem a sua lógica, seus prós e contras, dependendo da análise e do espaço de tempo que se considera.
Não é de hoje que nas empresas, em virtude da carência de recursos financeiros, as tomadas de decisões sobre investimentos somente levam em conta o custo inicial dos empreendimentos, desconsiderando todo o custo de manutenção que deverá ser agregado ao longo de sua vida útil. Sei que essa afirmativa não é regra geral, mas digo isso com um pouco de pesar, analisando minha realidade.
Prefeitura planta árvores e Concessionária de Energia constrói redes elétricas.
Faço esse lembrete porque na medida em que são plantadas árvores de pequeno e médio porte sob as redes elétricas, dependendo da espécie e das condições de solo, em seguida elas atingirão a rede. A partir daí, esta situação irá gerar custos : para as Concessionárias pois será necessário mantelas fora do alcance dos fios e dentro dos afastamentos de segurança recomendados.
Tudo é uma questão de tempo. Temos exemplos, aqui em Porto Alegre, de Mimo-de-vênus (Hibiscus rosa-sinensis) que não foi podado e chegou nas redes de Média Tensão (MT) e o da Extremosa (Lagerstroemia índica), que também necessita de poda para não atingir as redes de Baixa Tensão (BT)
Assim, acredito que poderíamos rever essa recomendação, indicando, também, o plantio de arvores de grande porte sob redes elétricas.
Tenho observado aqui na cidade, uma perfeita integração entre árvores de grande porte e redes elétricas. Essa constatação pode ser vista por qualquer pessoa, e só posso atribuir essa conformidade, as podas de condução muito bem feitas ao longo dos anos, que permitiram a formação de um “furo” na copa, por onde a fiação elétrica passa sem sofrer interferência.
Essa convivência harmoniosa, não tem gerado acidentes elétricos (desligamentos) significativos.
Posso citar, entre outros locais, trechos da Av. Polônia, Rua Marques do Pombal, Fernando Gomes, João Mendes Ouriques, Silveiro, Tomas Flores e Dona Laura.
Existem nesses locais árvores cujas copas formam verdadeiros túneis verdes, abrigando em seu interior, as redes elétricas. Essa vegetação é constituída principalmente de Jacarandás e Tipuanas. Temos, também, a mesma situação com árvores isoladas, como Paineiras, Canafístulas, Plátanos e até Guapuruvus, que convivem harmoniosamente com essas redes e cujas copas se desenvolvem acima da fiação.
Antes que alguém questione, já vou respondendo - não dispomos de mecanismos que indiquem a freqiiência com que esses vegetais causam interrupções na rede.
De qualquer forma, com base nos dados da manutenção, podemos dizer que as interrupções nos locais citados não são significativas para o FEC da Empresa (FEC é um indicador do Setor Elétrico que indica a freqiiência de interrupção em seu Sistema). Temos a certeza que esse dado é de fundamental importância para que essa avaliação não seja apenas um sentimento. O "achômetro” nesta área, ou em qualquer outra, não pode ser usado, principalmente quando se necessita ter certeza de um fato para mudar um procedimento. É por isso que estamos tentando criar mecanismos de aferições, como forma de subsidiar decisões futuras, sobre a preservação dos vegetais e/ou a substituição de condutores nus por cobertos, se for o caso.
Acredito que Porto Alegre é um bom laboratório para essa mudança de paradigma, por isso, estou tentando transformar o achômetro em algo mais consistente.
Acreditem, é um excelente exercício de paciência, persistência e tolerância.
Com base nas observações relatadas começo a crer que não existe árvore ideal para plantio sob redes elétricas. Podemos utilizar a de pequeno, médio e até a de grande porte, dependendo do manejo que será adotado ao longo dos anos.
Cabe lembrar aqui que a Prefeitura planta, muitas vezes com mudas cedidas pela Concessionária, e depois, essa mesma Concessionária, assume a tarefa de compatibilizala com as redes elétricas. A partir daí, com base nesta lógica, a definição do tipo de poda que será adotado passa a ser da Concessionária, tendo em vista ser ela a grande executara da atividade. Sei que essa situação não é regra geral, mas existe, principalmente em cidades que não possuem produção própria de mudas para arborização urbana.
A árvore de grande porte permite, através das sucessivas podas de compatibilização com as redes elétricas, uma melhor condução para a formação do “V” e, posteriormente, formação do túnel. Esta conformação não se consegue com a de pequeno e médio porte. Estas, com o passar do tempo, estarão sempre a exigir podas sucessivas, muitas vezes mutiladoras, em função da altura que atingem em relação a rede.
A formação do túnel a meu ver, principalmente como Agrônomo e morador da capital mais arborizada do Brasil, é interessante, já que mantém as características naturais da copa dos vegetais.
Esta afirmativa deve ser de difícil compreensão no setor elétrico, principalmente para o pessoal da manutenção, pois a cada temporal, ou dia de vento forte, é um problema administrar os conflitos gerados pela vegetação, principalmente tratandose de redes nuas. Talvez aí resida o grande problema da vegetação: redes nuas.
Será que não podemos começar a sonhar com um sistema de distribuição composto basicamente por redes compactas na Média Tensão e isolada na Baixa Tensão? Será que a inovação tecnológica das redes subterrâneas ainda as torna tão proibitivas em termos de custo, mesmo se utilizada seletivamente? Será que esse não é o caminho do futuro, para atender uma sociedade cada vez mais exigente nas questões ambientais?
Deixando os sonhos de lado e voltando a realidade, acredito que esse problema da indicação pode ser repensado, desde que se tenha dados de como se comportam as redes localizadas no interior da vegetação, em termos de interrupção, seja
ela nua ou protegida.
Nos locais acima citados a CEEE mantém uma excelente relação com a comunidade, vital para a imagem da Empresa, em virtude da preservação da integridade destas arvores, que fazem parte da história da rua e de seus moradores.
Outro argumento que me faz pensar assim, é dado por aqueles técnicos mais viajados, principalmente aos Estados Unidos, que comentam que nesse pais já existe pesquisa no sentido de avaliar a importância do sombreamento propiciado pela vegetação, na durabilidade dos cabos protegidos. Não podemos esquecer que este sombreamento reduz a exposição dos cabos à radiação ultravioleta do sol.
Já se observa, inclusive nas grandes Concessionárias do Brasil, que o Sistema Elétrico composto de rede compacta na média tensão (cabo protegido) e isolado na baixa, é uma tendência. Este deverá ser o novo padrão, em substituição as redes nuas existentes. Essa nova conformação, que substitui a cruzeta de sustentação dos cabos por um espaçador lozangular de no máximo 0,60m de diâmetro, melhora a confiabilidade do sistema, é uma alternativa barata de construção, se comparado com a rede subterrânea, e proporciona, indiscutivelmente, melhores condições para o desenvolvimento da arborização urbana.
Como já dissemos, essa tese, se assim pode ser chamada, é fruto de muita observação de campo e estamos conscientes de que existe a necessidade de maiores estudos para sua comprovação.
A divulgação deste artigo tem apenas um propósito: despertar interesse e curiosidade pelo assunto.
Espero que na sequência apareçam manifestações de concorcìância, ou não, sobre nossas impressões e, acima de tudo, que este artigo sirva de estímulo para que se busque mais dados e indicadores que nos levem a rever nossos paradigmas sobre redes elétricas e vegetação urbana de grande porte.
Agindo assim, quem sabe, poderemos dar outro rumo aos padrões de vegetação existentes em nossas cidades, propiciando através dela, maior área e volume de cobertura vegetal, tão necessário para amenizar os efeitos do nosso clima, predominantemente tropical.
Eng. Agrônomo da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) e primeiro Tesoureiro da SBAU
E-mail: nelsonc@ceee.com.br