Heliana Maria Silva Brasil
Belém do Pará, como é conhecida a capital paraense, foi fundada a 12 de janeiro de 1616, com o nome de Sta. Maria de Belém do Grão Pará, na confluência dos rios Guamá e Pará, braço direito do Amazonas em sua foz. Ao completar 386 anos em janeiro último, uma emissora de televisão fez uma enquete nas ruas sobre o que as pessoas achavam de mais característico na cidade. Alguns entrevistados citaram o Teatro da Paz, o tacacá, o mercado do Ver-o-peso, porém, a maioria citou as mangueiras e a chuva de todas as tardes.
E realmente, ambas parecem indissociáveis e “a cara de Belém”. É sabido que trocando a cobertura vegetal pelo cimento, asfalto, vidro e alumínio, poluindo os rios e o ar, está se influenciando no micro-clima, com conseqüências que extrapolam a área da cidade, sendo este mais um motivo para a preservação das nossas mangueiras.
Porém, preservar a arborização como um todo passa, muitas vezes, pela substituição de algumas árvores. Por isso, ressaltamos o trabalho que vem sendo desenvolvido pela Funverde, no sentido de identificar as mangueiras que apresentam troncos ocos e que, portanto, estão sem sustentação, podendo vir a quebrar e cair caso não sejam gradativamente substituídas.
Entretanto, infelizmente, esse não é o único motivo pelo qual várias árvores precisam ser eliminadas. Algumas possuem troncos completamente retorcidos, outras, galhos de grosso calibre com feridas profundas, outras, totalmente deformadas por podas mal feitas, que as tornam desequilibradas e, portanto, sujeitas a tombar com o vento forte que normalmente antecede as chuvas de verão (junho a novembro).
No período das chuvas constantes (dezembro a maio), o trabalho de remoção das árvores torna-se mais difícil e perigoso, mas é nessa época que o perigo de queda de toda a árvore ou de ramos – frequentemente mortos porque atacados de ervas de passarinho – também aumenta. Deixar que isso aconteça é botar em risco a vida e o patrimônio de pessoas que só teriam que lucrar com as árvores. Não é de hoje, porém, que temos ouvido como desculpa que a concessionária de energia não pode desligar e abaixar a rede de distribuição porque algum morador ou comerciante da área não aceita.
Ora, quando um ramo pesado ou uma árvore vem a baixo trazendo consigo as redes de energia, telefone, e agora de tv a cabo, não escolhe a hora nem manda aviso prévio, e os prejuízos, assim como o custo e o tempo para o restabelecimento das redes, são muito maiores.
Como já me referi em outras oportunidades, não cabe apenas aos órgãos públicos e às concessionárias a responsabilidade de manter Belém como a cidade das mangueiras – e das chuvas –, é preciso que a população também ajude. Uma forma de ajudar é não colocar obstáculos ao serviço de retirada das árvores senis ou desequilibradas, outra é não depredando as mudas plantadas em substituição, como já aconteceu com pelo menos duas na mesma quadra da mesma avenida. Assim como não se justifica plantar mangueira a esmo, em locais inapropriados, apenas para concorrer em número de árvores com outras cidades como Brasília e Cuiabá, é inconcebível eliminar essa fonte de abrigo, frutos e poesia.
Para atestar mais essa faceta das mangueiras de Belém, estaremos transcrevendo, nos próximos números deste Boletim, algumas expressões apaixonadas de poetas e escritores sobre elas próprias e sobre a cidade que abrigará o VII Congresso Brasileiro de Arborização Urbana, em 2003, como nesses versos da canção Longe Perto, de Nilson Chaves e João Gomes:
Partindo pra qualquer cidade,
Tô voltando pra ti ver.
Ficando sob essas mangueiras,
Vou embora sem querer.