Campanha pretende incentivar o plantio de árvores em quintais de residências

Campanha pretende incentivar o plantio de árvores em quintais de residências

Do jornal A Crítica

“Cadê o quintal que tinha aqui?”. É com esta pergunta que um grupo de ambientalistas e organizações não governamentais (ONGs) pretendem incentivar a população a plantar árvores – frutíferas ou nativas – nos quintais das casas. A campanha tem a finalidade de mostrar a importância da arborização residencial para o bem-estar das pessoas e o meio ambiente, uma vez que as árvores possuem diversas finalidades.

A ambientalista Erika Shloemp explica que os benefícios de quintais arborizados vão da manutenção do clima, ao combater “ilhas de calor”, à permeabilidade do solo, que faz com que a água da chuva se infiltre no solo e não vá para as ruas provocar alagamentos. Além, claro, de promover a conservação de corredores florestais para a fauna silvestre, como sauins-de-coleira, tucanos, araras, entre outras espécies de animais urbanos.

Outro ponto positivo será ajudar a frear o desmatamento dentro de terrenos particulares. “Estamos vendo tantas invasões e desmatamento. Isso reflete no clima da cidade que está mais quente. Incentivar a manutenção desses espaços verdes é uma forma de frear tudo e mostrar ao cidadão que ele mesmo pode contribuir. Não precisa esperar a prefeitura”, observa Shloemp.

A juíza Alvarina de Almeida Tiant é um exemplo para quem quer ter um quintal cheio de árvores. Ela tem um jardim que ocupa 700 metros quadrados do terreno. No local, estão plantadas mais de 100 espécies de plantas ornamentais, frutíferas e nativas. Plantou todo o jardim antes da casa dela ser concluída, em 1985, e não lhe custou R$ 1. “Peguei mudas no Horto Municipal, que ficava onde é a Cidade da Criança. Ia lá todo dia, pegava mudas diferentes e fui casando as cores”, relatou.

Para Alvarina, cuidar do jardim é uma terapia. E ela faz isso todos os sábados e domingo. “Passo o dia todo tirando folha seca, podando e replantando a poda. Gosto de fazer isso, sinto um prazer enorme. Além disso, tem a parte estética, qualquer vasinho de planta na janela de casa deixa o ambiente mais relaxante. Também ameniza o calor. Uma casa cercada de plantas tem o clima melhor que uma casa exposta ao sol”, apontou, revelando que está fazendo uma horta orgânica.

A aposentada Suely Oliveira dos Santos, é outra que gosta de plantar mudas no quintal. Ela aprendeu com a mãe, hoje, sua filha aprende com ela. As duas têm desde frutíferas a plantas medicinais no entorno de suas casas. Maracujá, amora, tomate, noni, sabugueiro, saratudo, crajiru, são algumas delas. Para Suely, os benefícios de ter um quintal assim são muitos. “Tem as frutas para comer, as folhas para fazer chá que previne doenças e um ambiente muito agradável”, afirmou.

No quintal da família Barreto, as plantas medicinais, assim como as frutíferas, as hortaliças e as ornamentais também ocupam um espaço especial. O chefe da família Luiz Carlos Barreto está trabalhando para montar um jardim. “Minha esposa e minha filha gostam muito de plantas e temos várias mudas para plantar pelo terreno. E aqui aparecem vários pássaros. Eles ficam na copa das árvores. Os periquitos vêm toda a tarde comer manga e depois de 17h vão embora”, disse.

Purificação e paisagismo

As árvores auxiliam na purificação e umidade do ar, absorvendo CO2 e gases tóxicos, ao mesmo tempo em que liberam oxigênio para a atmosfera. Na área urbana, as árvores também atenuam o calor, gerando sombra.

‘Parlendas’ inspiram campanha

A ideia da campanha foi da analista ambiental Natália Lima, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Ela conta que surgiu numa conversa com uma amiga sobre o gosto que crianças e adultos têm por parlendas (versinhos com temática infantil recitados em brincadeiras de criança). “Em meio a tanta destruição de quintais e fragmentos em Manaus associei a ideia do quintal a parlenda ‘Cadê o toucinho que estava aqui?’”, revelou.

Depois de socializar nas redes sociais, Lima conta que fez uma paródia do poema “Leilão de Jardim”, da Cecília Meireles. “Espero com ‘Leilão de Quintal’ contribuir com o debate sobre a importância dos quintais na conservação da biodiversidade, na proteção de solos”, enfatizou.

Apoio institucional

As ações da campanha “Cadê o quintal que tinha aqui?” devem começar neste segundo semestre. Os ambientalistas pretendem procurar a Prefeitura e a Câmara Municipal de Manaus para apresentar o projeto. Fazem parte dele as instituições: Ufam, Inpa/MCTIC, Ibama, ICMBio, Iaci, FVA, WCS Brasil, Projeto Entre Amigos – Manaus e Plano Sauim-de-coleira

IPTU Verde é bom estímulo

Para os ambientalistas envolvidos com o desenvolvimento da campanha “Cadê o quintal que tinha aqui?”, a Prefeitura de Manaus deve criar políticas públicas que incentive o plantio de árvores nos quintais de casas particulares. Um desses mecanismos pode ser conceder desconto no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para quem mantém uma área verde no quintal. Isso é realidade em diversas cidades brasileiras, onde os descontos com o chamado “IPTU Verde” variam de 10 a 100%.

A ambientalista Erika Shloemp ressalta que há um gasto para manter a área verde conservada e o proprietário ainda abdica parte do terreno em prol das árvores. O “IPTU Verde” seria uma forma de estimular a proteção, preservação e recuperação do meio ambiente. “Quem não tem quintal, pode plantar um ipê ou pau pretinho na sua calçada, se não tiver fio por perto, para fazer sombra ao pedestre, não colocar azulejo”, observou ela.

Erika Shloemp salienta que o poder público não tem nada a perder e o mecanismo traria qualidade de vida na cidade. “Vemos a prefeitura plantando muitas mudas, mas elas não duram porque as pessoas não se identificam. Mas se elas soubessem que plantar duas árvores no quintal ou na frente de casa teria desconto no IPTU tenho certeza que a prefeitura não precisaria se esforçar em mutirões de plantio e a cidade ficaria mais arborizada”, destacou.

Os ambientalistas defendem que o projeto do “IPTU Verde” tem que ser pensado conforme a demanda local. Que não seja copiado de outra cidade, com realidade diferente e que não daria certo ao ser aplicado em Manaus. “Até tivemos o projeto de lei 248/2013, mas não condiz com a nossa realidade. Uma das condições para ter o desconto era a residência ser ligada ao sistema de tratamento de esgoto e isso não temos em Manaus. Precisamos reinterpretar esse IPTU dando foco para os quintais””, salientou Erika Shloemp.

Hamilton Leão, um dos coordenadores do Instituto Amazônico da Cidadania (Iaci), critica a Prefeitura de Manaus por não cuidar e nem desenvolver mecanismos para que a própria comunidade possa fazer a manutenção das áreas verdes, deixando-as vulneráveis a invasões e desmatamentos, como ocorre nas zonas Norte e Leste. Para ele, se o poder público municipal não envolver as comunidades na manutenção desses espaços nada vai para frente.

“Quem destrói, muitas vezes, é a própria comunidade. Se não tiver esse diálogo com o entorno vai ser difícil”, apontou. “Em Maringá (PR), conforme o prefeito nos disse recentemente em um evento da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas) muitas mudanças foram implantadas em função do que as organizações queriam, em Manaus, se a sociedade apresenta uma ideia, o poder público fica melindroso”, completou.

Município diz que incentiva plantios

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) informou que conta com o projeto “Mais Fruta no Quintal” para estimular o plantio de árvores frutíferas nos quintais urbanos de Manaus. As mudas são doadas a população nos pontos fixos de distribuição e durante eventos e ações educativas realizadas pela pasta.

O projeto é uma das vertentes do Programa Arboriza Manaus, desenvolvido desde o ano passado e que distribuiu, somente entre janeiro e maio deste ano, 13,6 mil mudas frutíferas e ornamentais para plantio nas residências. A secretaria informou que produz e doa as mudas frutíferas e ornamentais para incentivar a população a manter pomares nos quintais e jardins.

A pasta também oferece ao longo do ano uma grade de minicursos voltados ao repasse de noções básicas de produção de mudas, jardinagem, cultivo de mudas de espécies frutíferas, manejo, planejamento da arborização, hortas urbanas, ensinando como se planta e se cuida, além de informações constantes no Plano Diretor de Arborização Urbana (Pdau).

Conforme a Semmas, cada pessoa tem direito receber cinco mudas com intervalos de 30 dias entre uma doação e outra. “A ideia é incentivar o plantio em quintais urbanos e não em sítios fora da jurisdição da cidade. É uma forma de se fazer um controle e evitar que mudas sejam utilizadas para venda ou plantio em áreas rurais”, explicou em nota.

As doações superiores a cinco mudas para pessoas físicas, entidades públicas e privadas devem ser requeridas via ofício, protocolado no atendimento da Semmas, constando os objetivos da doação, espécies e a quantidade de mudas.

Os pontos fixos de distribuição de mudas estão nos parque do Mindu (Zona Centro-Sul), Ponte dos Bilhares (Zona Centro-Sul), Lagoa Senador Arthur Virgilio Filho (Zona Sul), Nascentes do Mindu (Zona Leste) e Viveiro Municipal (Zona Leste).

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