Urbanização desordenada ameaça riqueza vegetal de Porto Alegre

Urbanização desordenada ameaça riqueza vegetal de Porto Alegre

Do Jornal Já

Não mais de 40 técnicos participaram na sexta-feira (8) à tarde do debate em que o biólogo Paulo Brack, do Instituto Ingá, apresentou a lista de 68 espécies vegetais ameaçadas de extinção em Porto Alegre.

No final da reunião, por sugestão de João Roberto Meira, biólogo da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), os especialistas presentes, já reduzidos a 20, concordaram em homologar imediatamente a lista a ser referendada posteriormente pela Câmara Técnica de Biodiversidade do Conselho Municipal do Meio Ambiente.

No Rio Grande do Sul, segundo Brack, há meia dúzia de municípios onde é obrigatório manter lista de vegetais ameaçados de extinção. Porto Alegre não faz parte da turma. O pioneiro é Pelotas, onde foi fundada, no final do século XIX, a primeira escola agrícola do Estado.

A legalização dessa relação de espécies que estão desaparecendo é fundamental para conscientizar os técnicos ambientais, angariar verbas públicas e envolver a população na defesa e preservação dos habitats mais vulneráveis da Capital.

No caso de Porto Alegre, embora a área municipal represente menos de 1% do território gaúcho, reúne 30% das ocorrências vegetais do Estado. Só de árvores são 181 espécies, algumas carregadas pelas águas do rio Jacuí, como a canela preta, a grápia e o sobragi, todas encontradas na beira do Guaíba, desde o início do delta até o Lami e Itapuã.

Ponto onde se encontram a flora e a fauna da Mata Atlântica e do Pampa, a Capital possui uma alta biodiversidade acuada pela urbanização acelerada e por invasões predatórias de áreas de risco, especialmente os morros, que concentram um número preocupante de vegetais ameaçados, como cactos e espécies rupestres rasteiras que produzem flores raras.

“Devemos fazer inventários da flora e da fauna, montar bancos de dados e criar planos de ação contra a extinção de espécies”, disse Paulo Brack, que denunciou a desconstituição pelo prefeito, em 2014, de um grupo de trabalho que trabalhava na SMAM pelo desenvolvimento de projetos conservacionistas como os corredores ecológicos.

Desconhecimento de espécies é generalizado

Além da falta de apoio das autoridades, os técnicos reclamam do desconhecimento generalizado da flora do Rio Grande do Sul pela maioria dos profissionais do meio ambiente, da biologia e das engenharias agrícola e florestal.

É uma espécie de crise cujas raízes remontam ao Brasil colônia. No final da reunião sobre a flora portoalegrense, Brack deu um exemplo marcante: ao participar recentemente de um levantamento de campo no sul do Estado, ele ficou sabendo que 52% da vegetação classificada no município de Piratini têm nomes estrangeiros fixados desde a época dos viajantes europeus como Auguste Saint-Hilaire, que percorreu o Rio Grande do Sul há 200 anos.

No Pampa, única reserva foi criada por Lutz

Apesar da antiguidade dos estudos sobre os recursos naturais nativos, o Rio Grande do Sul se perdeu na poeira levantada pelo desenvolvimento agrícola, que privilegiou o uso intensivo de máquinas para a expansão de lavouras, pomares e rebanhos originários de outras regiões do planeta.

Em consequência disso, reduziram-se drasticamente as áreas naturais como campos, várzeas, banhados, encostas e matas.

Essa contradição está explícita na situação do bioma Pampa, que ocupa a metade do território gaúcho mas não tem o status legal da Mata Atlântica, cuja flora desfruta de resoluções protetoras nascidas a partir da homologação de listas de espécies ameaçadas.

O Pampa é o bioma menos protegido do país. A primeira e única reserva federal na região foi criada em Alegrete por José Lutzenberger em sua fugaz passagem pelo Ministério do Meio Ambiente no governo de Fernando Collor (1990-1992).

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