Árvores urbanas testemunham a história da cidade

A Tarde

São alguns metros de um tronco largo, como um muro, até começarem os galhos – cada um deles poderia ser uma árvore, tamanho seu calibre, que toma toda a calçada. Muitos metros depois, a copa vai se adensando; folhas, galhos mais finos, cipós e grandes bromélias até perder de vista. Em meio à penumbra verde que é o Corredor da Vitória, essa mangueira centenária, localizada em frente ao Solar Cunha Guedes, destaca-se pela altura, largura do tronco e extensão da copa e é claramente a mais possante daquele trecho da Avenida Sete de Setembro. Seriam 100, 200 anos? As rugas no tronco não permitem saber. Poderíamos gritar embaixo, perguntar, seria em vão: ela é uma inalcançável e silenciosa testemunha das mudanças daquele local e viu nascer os prédios que hoje são maiores do que ela.

A ausência de dados não é à toa. Salvador ainda não tem um levantamento de suas árvores urbanas: não se sabe quantas são, de que espécies e há quanto tempo existem na cidade. Mudar esse cenário está entre os objetivos do Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), aprovado em dezembro pela Câmara Municipal de Salvador. “A cidade é muito grande, tem muitas árvores. Houve o início de um levantamento, 90 mil árvores. Quando chegamos, o banco de dados não era mais compatível, não me arriscaria a afirmar quantas árvores tem”, diz o titular da Secretaria de Cidade Sustentável e Inovação (Secis), André Fraga. Ainda não há previsão para esse mapeamento. Enquanto isso, técnicos acreditam que, se não é maior, a mangueira da Vitória é uma das maiores da capital.

Tão íntima dos soteropolitanos, podendo ser reconhecida pelos mais leigos em botânica, a mangueira não é uma árvore nativa. Assim como a amendoeira, que pode ser encontrada facilmente pelos bairros, fornecendo sua sombra generosa. Outra regra constante no PDAU é familiarizar os moradores da cidade com as espécies da terra, utilizando-as na arborização urbana. Os manuais elaborados no desenvolvimento do plano elencam 50 espécies da mata atlântica local que podem ser usadas tanto pelo poder público como pelo cidadão que deseja plantar uma árvore no passeio na frente de casa. “Temos o pau-ferro, a sibipiruna, pau-brasil, chuva-de-ouro, ipês, a cocoloba. Também vamos sugerir o plantio de frutíferas voltadas para os quintais. Se você planta uma mangueira numa avenida de vale, um monte de gente vai vir pegar, gera problemas de trânsito, querem jogar pedra para tirar a fruta, arriscando atingir a cabeça de alguém”, diz Fraga. Nas ruas, podem ser plantadas as frutíferas que atraem pássaros e outros animais.

As multas determinadas no plano já estão valendo, variando entre R$ 300, em caso de uso de árvores para suporte de objetos e material publicitário, a R$ 50 mil, pelo remoção de árvores com imunidade de corte, como é o caso do pau-brasil. Qualquer cidadão pode, aliás, tornar uma árvore imune ao corte, por meio de uma solicitação formal à prefeitura.

0 Comment