Artigo – Arborização integrada à realidade urbana como fator de transição

Por: Osmar de Carvalho Bueno

UNESP/FCA, Caixa Postal 237 – CEP: 18610-307 – Botucatu/SP, osmar@fca.unesp.br

Introdução: Os benefícios da arborização urbana, em particular de vias públicas, são reconhecidos pela literatura em várias áreas do conhecimento. Dessa forma, a arborização urbana de acompanhamento viário (AUAV) vem agregando vantagens que vão além da dimensão paisagística e, para que sejam alcançados seus inúmeros benefícios, percebe-se cada vez mais crescente o consenso da necessidade de planejamento, este estendido à implantação, manejo e monitoramento.

É sabido que diversas dimensões devem ser contempladas num processo de planejamento, concepção que parece, ainda que de forma difusa, apresentar-se como um caminho sem volta. Por outro lado, o constante e conflituoso encontro dessas dimensões, embora possa aparentar certa paralisia, represente o saudável combustível que alimenta esse processo.

Nesse sentido, um arcabouço legal parece ser fundamental para, ao lado da conscientização da sociedade, internalizar valores, atitudes e comportamentos frente à AUAV. Embora carregados de diversos matizes, legislações municipais que incorporam a temática arborização urbana (AU) já podem, em certa medida, serem consideradas uma realidade. Projetos de educação ambiental, por outro lado, ganham espaços cada vez maiores junto aos mais variados setores da sociedade. Nesse sentido particular, a participação real da sociedade nas várias etapas do planejamento, implantação, manejo e monitoramento da AU deve se apresentar como fundamental pilar de sustentação.

Em função das questões colocadas, o presente trabalho tem por objetivo discutir a necessária diversidade de “olhares” e ações frente às heterogeneidades observadas nos municípios como fator de transição no caminho de áreas urbanas mais equilibradas.
Metodologia: A metodologia utilizada no presente trabalho consistiu em levantamento bibliográfico com especial ênfase em eventos de caráter nacional realizados pela Sociedade Brasileira de Arborização Urbana.

Resultados e Discussão: A intensa urbanização verificada em escala mundial acompanhada de suas consequências negativas faz com que a AUAV venha alcançando posição de maior interesse e preocupação junto à sociedade em geral (Silva et al., 2005), com destaque às diversas percepções tanto quanto à sua necessidade quanto às diferentes modalidades de ação (Bueno e Antonio, 1999).

Embora muitos dos parâmetros que devem ser levados em consideração nas fases de planejamento, implantação, manejo e monitoramento da AUAV sejam consagrados no meio acadêmico, observam-se conflitos não apenas no seu interior, como também no meio técnico, político e dos negócios. É fato, todavia, que as contradições encontradas impulsionam os debates e as alternativas na velocidade do possível.

Sanchotene (2000) afirmou que em função das variáveis que compõe o processo de desenvolvimento dos municípios, características peculiares lhes são atribuídas. Assim, é importante considerar os diferentes desenhos da composição urbana.

A questão do tamanho dos lotes; recuos residenciais e comerciais; largura dos passeios e leito carroçável; presença de posteação que sustentam a iluminação pública e redes aéreas de energia, telefonia, etc.; redes de saneamento básico e transporte de águas pluviais; presença necessária de equipamentos urbanos, como telefones públicos, luminárias, placas de sinalização de trânsito, abrigos para utilização de transporte coletivo, entre outros, disputam espaço nas calçadas com lixeiras e pequenos jardins. É nesse mosaico caótico que a AUAV deve ou tem de inserir-se. Frente ao exposto, é razoável compreender o estabelecimento de conflitos de toda ordem. Nesse sentido, a política de ordenamento urbano que permite o estabelecimento de uma AUAV faz-se por uma espécie de “consenso da comunidade”, expresso ou não por instrumentos legais.

Mesmo definidos em legislação para municípios com um mínimo populacional, os planos diretores aparecem como uma realidade incompleta em parcela significativa dos municípios brasileiros. Quando definidos em Lei, a questão da AU, e em particular da AUAV, aparece marginalmente na maioria das vezes. A ideia da observância de um Plano Diretor de AU passa então a ser a “exceção da exceção”, salvo em alguns municípios de grande porte.

Mutiladas por podas mal feitas tanto diretamente por instituições públicas e privadas quanto indiretamente por empresas terceirizadas, além daquelas executadas pelos próprios munícipes, o que se observa na realidade do meio urbano são árvores desfiguradas em sua arquitetura natural. Tais árvores, por via de conseqüência, em quase nada promovem os consagrados benefícios inerentes a presença delas quando plenamente desenvolvidas. Vale assinalar que essas situações se aplicam, inclusive e em muitas vezes, em espécies consideradas de médio e até mesmo pequeno porte.

A experiência e a literatura especializada apontam, nesses casos, principalmente a incompatibilidade do porte das espécies plantadas no passeio público com as características urbanas, particularmente as redes aéreas. Enquanto autores afirmam a pouca significância do plantio de árvores de pequeno porte, outros observam certa “tolerância” a espécies de médio porte. Observa-se, entretanto, em parte significativa do discurso acadêmico indiferente às diversas realidades socialmente construídas do tecido urbano, a validação quase exclusiva da composição de espécies de grande porte na AUAV.

Sem dúvida são as espécies de grande porte que efetivam os benefícios das árvores no ambiente urbano de maneira completa e harmoniosa, contribuindo para a qualidade de vida da sociedade. Porém, é necessário observar as questões objetivas (culturais) que permeiam a maioria dos municípios brasileiros, onde as características urbanas, reflexo do padrão cultural imposto e dominante, inviabilizam a presença maciça de espécies de grande porte nos passeios públicos.

Assim, entre a “certeza” das opiniões de pesquisadores e técnicos e as relações politicoculturais estabelecidas em parcela significa dos municípios brasileiros, é necessário existir um meio termo, baseado também no bom senso, que permita a coexistência de árvores em vias públicas levando em consideração as principais características das atuais malhas urbanas observadas no Brasil. Nesse sentido, o planejamento da AUAV, com real participação da sociedade, onde a inserção e manutenção de espécies de médio e pequeno porte não deve ser considerado marginal ao processo de discussão da AU necessita, no mínimo, ser melhor discutido.

Conclusões: É importante um aprofundamento no debate de que árvores de médio e pequeno porte podem, quando bem manejadas, conviverem mais harmoniosamente com as características urbanas de parte significativa dos municípios brasileiros, proporcionando, em muitas situações, maiores benefícios do que árvores de grande porte desfiguradas em função de sua incompatibilidade ou com sua existência muito mais próxima da idealização. Por outro lado, e de forma paralela, diretrizes definidas em legislação ou estabelecidas por intermédio de normas não escritas devem ser avaliadas como importante passo no processo de transição para municípios que contemplem um desenvolvimento includente e ambientalmente sustentável em sua composição urbana.

Referências:
BUENO, O. C.; ANTONIO, C. B. Arborização urbana: diversas percepções, diferentes ações. In: ENCONTRO NACIONAL DE ARBORIZAÇÃO URBANA, 8, 1999, Fortaleza/CE. Anais…Fortaleza: SBAU/ANAMMA/ISA, 1999. p. 64.
SANCHOTENE, M. C. C. Plano Diretor de arborização de vias públicas para Porto Alegre. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ARBORIZAÇÃO URBANA, 5, 2000, Rio de Janeiro/RJ. Anais…Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, 2000. Cd-Rom.
SILVA, A. G.; GONÇALVES, W.; SILVA, E.; TIBIRIÇÁ, A. C. G. Análise dos impactos ambientais da arborização de uma cidade de pequeno porte pelo método do quadro sintético. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ARBORIZAÇÃO URBANA, 9, 2005, Belo Horizonte/MG. Anais…Belo Horizonte: Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, 2005. Cd-Rom.

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